terça-feira, 5 de novembro de 2013
terça-feira, 29 de outubro de 2013
domingo, 27 de outubro de 2013
Pär Lagerkvist - O Anão
Pär Lagerkvist criou o anão mais hediondo do universo literário. Inserido numa corte italiana, este
anão mal humorado despreza visceralmente todos os seres humanos, com exceção, talvez, do seu amo («De
todos os seres que tenho encontrado, é o único que não desprezo.»), ainda que, volta e meia, nem mesmo o príncipe escape à misantropia desta criatura («(...) contentar-me-ei em repetir o que já disse antes: que o meu desprezo por ele não conhece limites.»). Esta indecisão é a única falha que podemos apontar à sua coerência, em tudo o resto ele é, coerentemente, sórdido.
Vendido pela própria mãe («Fui assim vendido por minha mãe, que se afastou de mim com horror ao ver o
ser que tinha saído do seu ventre, sem compreender que eu descendia duma velhíssima raça.»), foi sempre
incapaz de amar e raramente experimenta contentamento («Eu? Eu que não sinto prazer em nada!»). A única
coisa que o entusiasma é a possibilidade de sangrentos combates («Tenho sede de sangue!»), a guerra
excita-o enquanto os momentos de paz o deprimem e lhe parecem preenchidos «por uma interminável
tagarelice».
Ainda que em tempos idos, os anões fossem integrados nas cortes para fazerem de bobos, este «nunca se
rebaixou a semelhantes manifestações», nem tão pouco chegou a lamentar o aspeto que lhe coube em sorte
(«De modo algum me desagrada pertencer a uma raça diferente da raça actual e que isso seja visível na
minha pessoa.»). Mesmo convicto da superioridade da sua raça, despreza todos os outros anões com quem
conviveu e tudo fez para que, um a um, fossem desaparecendo da sua beira, era-lhe penoso vê-los
sujeitarem-se a tamanhas humilhações («Sinto-me feliz por estar só. O meu destino é odiar as criaturas da
minha própria espécie. A minha própria estirpe é-me execrável!»).
Profundamente dedicado ao seu príncipe («Eu sentia por ele uma dedicação apaixonada»), agrada-lhe a posição que ocupa na corte, sente-se poderoso por frequentar o círculo próximo dos monarcas, por imiscuir-se na sua intimidade e conhecer em primeira mão todos os planos e segredos da corte.
«Piccolino» carrega em si toda a maldade do mundo. Os homens com quem se cruza temem-no porque nos seus olhos veem refletido todo o mal que trazem no seu âmago e que cobrem com o manto da decência exigida em sociedade. Pelo contrário, este anão é transparente («Não abrigo nenhum desconhecido. E reconheço tudo o que vem de mim, nada surge nos subterrâneos do meu ser, pois nada lá se encontra oculto na sombra.»), é cruel e isso não o angustia («Não, eu não conheço nem a angústia nem os remorsos, nenhum sentimento que possa especialmente comover-me.»).
Profundamente dedicado ao seu príncipe («Eu sentia por ele uma dedicação apaixonada»), agrada-lhe a posição que ocupa na corte, sente-se poderoso por frequentar o círculo próximo dos monarcas, por imiscuir-se na sua intimidade e conhecer em primeira mão todos os planos e segredos da corte.
«Piccolino» carrega em si toda a maldade do mundo. Os homens com quem se cruza temem-no porque nos seus olhos veem refletido todo o mal que trazem no seu âmago e que cobrem com o manto da decência exigida em sociedade. Pelo contrário, este anão é transparente («Não abrigo nenhum desconhecido. E reconheço tudo o que vem de mim, nada surge nos subterrâneos do meu ser, pois nada lá se encontra oculto na sombra.»), é cruel e isso não o angustia («Não, eu não conheço nem a angústia nem os remorsos, nenhum sentimento que possa especialmente comover-me.»).
Sem artifícios ou floreados, a escrita de Pär Lagerkvist permite que este diário transmita com um realismo admirável todos os sentimentos de um anão repugnante e invulgar. Estados de espírito que oscilam entre a euforia e o desânimo são revelados ao leitor com uma aparente simplicidade estilística, numa obra que rapidamente se transforma, afinal, num retrato perfeito e assustador da perversidade da consciência humana.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Valter Hugo Mãe - A Desumanização
O Filho de Mil Homens deixou-me saudades que se foram agigantando nestes dois anos de espera. Foi duro, mas deixem-me que vos diga, não foi em vão, A Desumanização é um livro imperdível. Claro que isso não faz com que seja fácil falar sobre ele, pelo contrário, mesmo depois de o ler duas vezes foram precisas outras tantas semanas para arrancar a ferros este texto miserável que vos deixo.
Não podemos definir este romance apenas como uma história dramática vivida nos inóspitos fiordes islandeses. Que nos falte a coragem para sujeitá-lo a tão débil definição quando se trata de um livro que fala, entre tantas outras coisas, de crescimento, de insularidade, de luto, de solidão, de amor, de medo, de busca de identidade. Muito de pessoas, outro muito de paisagem. Mas esta Islândia nunca se contentaria em ser somente um cenário, é uma personagem forte, esmagadora, também ela em transformação descontrolada, que condiciona a existência de todas as outras personagens («Era igual a querermos controlar o nervoso da Islândia. Da Islândia inteira. Um nervoso que se nos impunha, tão vulneráveis e para tudo deixados à deriva.»).
A narradora, Halldora, é uma menina de 11 anos que perde a irmã gémea («Foram dizer-me que a plantavam.») e se vê obrigada a descobrir uma forma de persistir com essa falha, com essa metade desarraigada da sua pessoa, no seio de uma família despedaçada pela tristeza. Amando um pai esvaziado («(...) era agora um homem encurralado. Impotente. Com os nervos a toldarem-lhe as ideias. Ainda generoso, mas confuso. Não escapava de si mesmo. Andava singular, e singular se predava, se abatia. Sozinho, o meu pai seria suficiente para se consumir. Para se acabar.») e defendendo-se de uma mãe que o sofrimento tornou cruel.
Halldora cresce em carne viva, «atrapalhada com ser ainda criança e ter dentro toda a dor do mundo». Sem orientação, consente que a inocência da infância se extinga («Não me ajudavam a regressar à infância. À desimportância da infância.») e, muito mais rápido do que merecia, torna-se mulher («Era uma mulher tão completa quanto apenas a tristeza as sabia fazer.»). Assistimos impotentes às suas escolhas questionáveis, próprias da adolescência, e vemo-la perder-se entre as incertezas do que queria («(...) confessei que me vinha ao coração uma vontade muito grande de partir o corpo. Alguém afirmou que eu me viciara na duplicação. Não tinha identidade própria. Era uma aberração. Queria fugir. Quem quer fugir já metade foi embora.») e a convicção do que não queria. E o que Halldora (e Sigridur) não queria(m) era continuar a ser aquilo («Escutaria a tristeza dos nossos dias. Recusava-se a nascer para aquilo. Para ser o que éramos nós.»).
Um romance inesquecível escrito em frases curtas que não são mais do que versos de poemas ligados por vírgulas ou pontos finais numa linha contínua. Frases curtas que se organizam em capítulos igualmente curtos. Apesar de ser um livro profundamente triste, houve espaço para deixar transparecer um pouco do humor de Valter Hugo Mãe. Tinha de existir esta tia «solteirona e larga, como uma mulher que comera um urso sozinha. Ressonava como se o urso ainda estivesse a refilar dentro dela, reclamando que o deixasse sair.». Era preciso sorrir no meio de tanta tristeza opressora.
Gudmundur diz que «A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro. (...) Todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. Para que um veja e o outro ouça.».
O propósito de um livro também só se cumpre se existirem ao menos dois. Para que um escreva e o outro leia. No entanto, só a beleza pode distinguir e enaltecer uma obra. A deste romance existe, é real porque a posso partilhar convosco. Não tarda seremos muitos, a ler, a partilhar, e a provar que a literatura torna o Mundo todos os dias um bocadinho mais bonito. Ainda que ele esteja, efetivamente, a desumanizar-se.
Citações:
«Por serem ingénuas, as ovelhas levavam os corações puros que apenas suportavam a alegria de comerem do chão sem surpresas.»
«Fui confirmar ao meu pai que descobrira a pânico. Um instante em que o interior nos vinha à pele estarrecido com o nojento das entranhas.»
«Quando falo, não entrego nada. Deixo mesmamente despido quem tem frio e não encho a barriga dos que têm fome. Quando falo, o que faço é perto de não fazer nada e, no entanto, cria-nos a sensação de fazer tanto.»
«Talvez tivessem sido os pássaros mais tristes quem levara os lagos para os topos difíceis das montanhas. Apenas os pássaros poderiam ter sofrido tanto em tão altos e distantes lugares.»
«Ali me sentei, nem chorando, descansando os braços do berço triste que haviam feito.»
«Disse-lhe que não aceitava mais ser criança. As crianças não sepultam filhos. Quem sepulta um filho não tem idade.»
«E acreditar que deus se ocuparia também dos nossos destinos era uma casmurrice, talvez. Uma pretensão toda a dar-se importância. (…) Deus certamente bocejaria se assistisse ao espectáculo pequenino das nossas vidas. Estaria indubitavelmente olhando para outro lado, para outro lugar. (…) Deus devia estar ocupado com mais gente. Lugares de mais gente. Onde verdadeiramente alguém se revelasse excecional e admirável.»
«Os livros podiam ser atentos ou desatentos ao modo como contavam. Nós, inspecionando muito rigorosamente, achávamos melhores aqueles que falavam como se inventassem modos de falar. Para percebermos melhor o que, afinal, era reconhecido mas nunca fora dito antes. Os melhores livros inauguravam expressões. Diziam-nas pela primeira vez como se as nascessem. Ideias que nasciam para caberem nos lugares obscuros da nossa existência.»
sábado, 5 de outubro de 2013
Susana Moreira Marques - Agora e na Hora da Nossa Morte
A morte assusta. Não gostamos de pronunciar o seu nome com medo que nos ronde. O que dizer então de quem vai à sua
procura? Foi o que Susana Moreira Marques fez, foi a terras de gente a quem a morte andava a rondar. Embrenhou-se em
Trás-os-Montes, em aldeias que, pelo isolamento, se não tresandam a morte, a vida é que não cheiram de certeza e, de forma corajosa, acompanhou profissionais que são verdadeiros heróis a quem nunca se fará justiça.
A autora quis saber os pensamentos mais íntimos de um moribundo, aqueles que se revelam nas horas de maior desespero. «Se
eu regressar, bater à porta mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez, se eu tiver tempo, tempo sem pressa, disfarçando
que nasci na cidade, se eu souber ouvir melhor, cada palavra sentindo-se acarinhada e compreendida, se eu souber o que
fazer com as mãos e não tirar notas, será que as pessoas vão abrir e dizer o que realmente pensam nas solitárias e lentas
horas da noite?». Talvez fosse um trabalho inglório, impossível de realizar, há coisas que nem um moribundo tem coragem de
confessar, ainda que já não haja nada a perder senão tempo. Mas Susana Moreira Marques conseguiu ao menos fazer com que
as memórias destas pessoas não morressem com elas. Deixa-nos também a certeza de que cada pessoa tem uma história
extraordinária para contar, basta irmos atrás dela, de coração aberto. Não é preciso vasculhar nem invadir os baús guardados no sótão, basta ouvir. Abrir o peito, puxar de um banquinho, deixar os julgamentos e preconceitos no umbral da porta de entrada, e simplesmente ouvir.
Esta jornalista procurou a morte e encontrou-a. Mas a morte não estava só, a morte não se conseguiu desenvencilhar do conceito de família que só existe nestes ermos que o país esconde com vergonha, em vez de se orgulhar e congratular por existirem. É por isso que os emigrantes voltam sempre em agosto. É por isso que não havendo crianças na maior parte do ano, estes lugares se enchem de berros e gargalhadas no verão. Porque nestas aldeias isoladas de tudo, existe um amor que aquela gente não conhece palavras para explicar. Um amor empático, altruísta. Um amor que é feito de dar, gerado pela necessidade de partilhar a solidão e o isolamento. É a esse amor que chegamos quando o resto do mundo nos vota ao esquecimento. «Quereria voltar ao fim do mundo uma e outra vez, porque uma e outra vez quereria recuperar o que no meu mundo (o centro?) parecia estar perdido: uma certa maneira de mostrar o amor.»
Neste livro pequenino, intenso, fala-se sobre morte mas enaltecem-se os afetos e o facto de se estar vivo. Há quem diga que não é preciso sofrer para saber o que é o sofrimento, mas eu cá concordo com a Paula: «ai, a gente só sabe é quando as passa».
Citações:
«Eu parece-me que há qualquer coisa depois da morte. Tenho essa ideia. Tanto nos metiam medo com coisas, para que nos andariam a enganar? Mas não sei. Os que morreram não escrevem, não telefonam, e a gente fica sem saber.»
domingo, 22 de setembro de 2013
Ricardo Lísias - O Livro dos Mandarins
Ricardo Lísias é um autor brasileiro que inexplicavelmente ainda não se encontra publicado em Portugal - Hello? Editoras?
Alguém aí? Knock knock! A minha curiosidade aumentava cada vez que alguém falava (sempre bem) sobre O Céu dos Suicidas
ou Divórcio. A bem da verdade ainda não tinha lido comentários a este título (simpaticamente oferecido pela gentil,
sempre adorada, Denise), mas só esperava coisas boas. Às primeiras páginas quase tive uma epifania. A forma de contar a
história é muito original: num fluxo, sem pausas, as descrições e diálogos vão acontecendo dando voz, ora à consciência de
uma personagem, ora à consciência de outra, ou até mesmo à experiência de um narrador heterodiegético omnisciente. E
quando digo um fluxo, quero dizer que de facto o que está para a frente se liga ao que ficou para trás e que este passado
condiciona tudo. Condiciona por exemplo a evolução do nome das personagens que nunca é estanque, embora todos os nomes
tenham tendência a pertencer à mesma família (Paulo, Paula, Paulinho, Paul, Paulson, Paul* ou diversos Omar Hasan Ahmad
al-Bashir). A juntar a isto temos previsões certas de um futuro que, descobrimos mais tarde, pode não chegar a acontecer.
É um livro fácil de ler, a atenção que requer na identificação das personagens é compensada pelas repetições exaustivas de
uma ideia ou de um parágrafo que ficamos a conhecer de cor, como se a história fosse contada várias vezes. Sim, já sabemos
que a personagem principal é uma admiradora fervorosa do "ex-presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso", que tem
uma dor de costas que "se desloca e cada dia fica em um lugar diferente" e que esta melhoraria (ou melhorará?) com o "uso
da Ceragem, uma cama que, com quarenta minutos por dia, alivia a dor nas costas de qualquer um".
Este não é um livro sobre a China. Na realidade é um livro sobre negócios, sobre corporações, sobre lealdade
constitucional, sobre ambição e sobre assuntos mais sérios que não adianta agora aflorar. Tudo abordado com um toque de humor saudável e indispensável.
Para mim o melhor é a forma como está escrito, surpreendente a cada passo, embora me parecesse mais sensato que tivesse menos páginas. O pior é mesmo esta sensação de confusão que me assaltou quando virei a última página, a certeza de não ter alcançado o objetivo e a malograda esperança de assistir a um final que pudesse dar sentido a tantas pontas soltas. Se não for pedir muito, alguém que me dê a mão.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Jorge de Sousa Braga - O Poeta Nu (Poesia)
Não é novidade que eu não sei - nem tento - escrever ou falar sobre poesia. Guio-me pela opinião que tenho de que para gostarmos de um poema temos, de certa forma, de nos identificar com ele. Ou porque fala de fases da vida pelas quais já passámos, ou porque retrata emoções que julgamos já ter sentido - ou até porque as retrata tão bem que nos coloca na pele do sujeito poético -, ou porque tem um humor semelhante ao nosso, ou simplesmente porque transmite uma ideia genial que nos deixa embasbacados por alguém ter tido o discernimento de pensar nela.
Se eu estiver certa, esse é o motivo de eu não poder dizer que gosto sinceramente de Jorge de Sousa Braga. Não nos identificamos. É verdade que o achei genial por vezes e é também verdade que me ri com gosto, mas, em bem mais de metade da obra, não me relacionei com o que estava a ler. Fui confundida pelo non-sense e encontrei ciências exatas a inundar o tempo que guardo para a literatura. Para mais, mesmo sabendo que longe vão os tempos (ainda bem!) da obrigatoriedade dos formatos rígidos, não pude deixar de evitar pensar que estava a ler pensamentos e não poesia.
Deixo-vos os poemas que assinalei. Porquê estes? Nem que me pedissem muito saberia explicar.
«Era quase tão bela como a Vénus de Milo. Um dia cortou
os braços a sangue frio»
«Poema de Amor
Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que não
te coubesse no dedo»
«Levaram-no ao Serviço de Urgência. Perdera a fala
subitamente. O médico que o assistiu veio a apurar que
ligara as cordas vocais entre si para conseguir escapar
da sua prisão interior.»
«Lagoa Comprida
Sempre me intrigaram esses lagos de montanha alcan-
dorados nas nuvens. É como se fossem gigantescas taças
de orvalho que as montanhas erguessem para brindar
a cada novo dia.»
«Remos
Uma das coisas que aprendi muito cedo ainda foi a remar.
De modo a conjugar o som dos remos a cortarem a água
com o bater do meu coração.
Aprendi primeiro a remar contra a corrente. E agora
não sei - nem ouso - remar de outra maneira.»
«Vulcões
É cada vez mais reduzido o número de vulcões em acti-
vidade: o Stromboli, o Etna... Só de longe a longe nos
chegam ecos de uma súbita erupção.
Lentamente a terra vai perdendo a ilusão de que é uma
estrela!»
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Maria Teresa Horta - As Luzes de Leonor
Um extensíssimo poema sobre uma mulher nascida no Século das Luzes que dedicou a sua vida à busca da sabedoria e do conhecimento. Sempre muito à frente dos seus, bateu-se por um país que não fosse minado de intrigas e jogos políticos, lutou contra o despotismo que lhe marcou a infância e a juventude, questionou as proibições impostas ao sexo feminino e nunca se deixou vergar pelo que queriam impor-lhe.
Uma mulher culta e inteligente que foi presença notada em todas as cortes que frequentou, que tinha tantos admiradores quantos inimigos, que à imposição de casar e ter filhos respondeu com a necessidade de saber sempre mais. Enfurecia-se com a banalidade da sociedade portuguesa, o que fez com que, contrariando o pai severo, ousasse sair do país. Quis viajar, correr mundo à procura dos Grandes com os quais acabou por privar. Uma mulher com carácter e detentora de uma coragem invulgar que D. Maria, Carlota Joaquina e até Maria Antonieta fizeram questão de ter a seu lado.
Maria Teresa Horta revive a história de Leonor de Almeida, uma filha das Luzes que procurou sempre mais do que encontrou, que deu à poesia o que não soube ou não quis dar aos filhos. Para contá-la, recorre a uma linguagem poética utilizando um vastíssimo vocabulário que se enovela em metáforas e aliterações. Uma fórmula de sucesso, talvez a única capaz de espelhar todo o esplendor do século XVIII, de invadir a imaginação do leitor convidando-o a sentar-se a mesas fartas e a passear pelas ruas de uma Europa que a custo se iluminava.
sábado, 14 de setembro de 2013
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Amélie Nothomb - A Cosmética do Inimigo
Este livro nasce de um diálogo forçado numa sala de embarque de um aeroporto. Um homem abeira-se de um desconhecido que lê em paz e insiste em contar-lhe a história da sua vida. Depois de se debater inutilmente, Jérôme Angust conclui finalmente que não lhe resta outra hipótese senão ouvir o que aquele louco tem para lhe dizer. Não é ainda aqui que desconfiamos que a própria autora do livro será tão louca como Textor Texel mas não faltarão muitas páginas até isso acontecer.
É num estilo muito direto que Amélie Nothomb desenvolve a história impensável de um tresloucado. Um relato descorado onde raramente conseguia vislumbrar a Amélie Nothomb de Temor e Tremor. Senti-me orfã e desamparada em frases curtas, de ironia previsível, nas quais se antevia um pouco de génio - entenda-se feitio - mas longe da hilaridade do livro que retratou brilhantemente a sua experiência profissional no Japão.
E a verdade é que chegada à segunda metade de um livro tão pequeno eu já não esperava grande coisa. Engano e problema eu. Fui apanhada completamente desprevenida, vi-me chegar àquele estado descontrolado em que esbugalhamos os olhos, voltamos a página atrás e não somos capazes de acreditar no que estamos a ler. Isto uma vez. Meia dúzia de páginas à frente, volta a acontecer. Perdi de tal forma o chão que acho que ainda não estou recomposta.
Não esperem uma obra literária imperdível mas convençam-se que é uma história de doidos que nos endoidece irremediavelmente. A um preço absurdo de 2,5€ eu diria que vale bem a pena arriscar uma entrada pela porta grande no Júlio de Matos.
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