quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Mário de Carvalho - Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde

 

Esclarecem-se os incautos: «Este não é um romance histórico» porque o município de Tarcisis nunca existiu. Fica difícil de acreditar perante tão exímias descrições dos costumes e quotidianos de uma povoação do Império Romano no início do primeiro milénio: o que comem, como se relacionam, quem manda, no que acreditam, como se divertem, como julgam e o que toleram. 
Lúcio Valério Quíncio é o duúnviro de Tarcisis. Será seguro classificá-lo como um homem justo, incorruptível, compassivo e dedicado, embora, talvez, demasiado alheado dos pequenos mexericos que percorrem as ruas de boca em boca e que o aproximariam das massas. A seu lado, Mara, companheira de e para toda a vida, uma mulher discreta com o dom de proferir ou calar as palavras certas nas ocasiões mais delicadas. 
Sendo tudo isto verdade, por que razão desabafa Lúcio, logo no primeiro capítulo, os males que sofre no exílio («Nunca quis lembrar-me o meu exílio nem diminuir-me com a memória dos meus infortúnios.»)? Algo correu mal durante a sua governação que, justiça lhe seja feita, nunca desejou. 
Lutar contra mouros torna-se, afinal, tarefa bem mais fácil do que lutar contra a deslealdade no seio da sua própria comunidade que se mostra agitada e, sem motivos, descontente. O aparecimento de uma seita - em tudo semelhante à religião cristã, dita «condenada como tantas outras modas a ser engolida pelos abismos do tempo. Fumos fátuos de um lume de palha…» - que entra em conflito com os preceitos romanos foi apenas o rastilho de uma explosão certa com data por anunciar. 
Esta é uma história de princípios, de solidão e de lealdade. Mário de Carvalho escreveu-a como bem sabe, escolhendo criteriosamente os termos, explorando a riqueza da língua portuguesa, sem nunca deixar que isso lhe roubasse a objetividade de um enredo que critica duramente as esferas de poder populistas, corruptas e adeptas do compadrio.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Mário Zambujal - À Noite Logo Se Vê


Depois de O Diário Oculto de Nora Rute que me deixou desconsolada por ser tão curto, era necessário continuar a ler Mário Zambujal para, na minha cabeça, tentar associar um estilo ao autor. Escolhi um clássico: À Noite Logo Se Vê.
«No tempo inteiro de quatro anos, quatro, não nasceu criança, uma que fosse, menino ou menina, na aldeia do Roseiral;» e está dado o mote, é preciso esclarecer este imbróglio. Catástrofe natural, obra do fantástico ou conjunto de acasos, alguma explicação terá de ser encontrada e ninguém melhor do que Guilhermino João Ukkonen Miralva para o fazer, afinal, diz o próprio: «Desde fedelho sonhava eu dedicar-me ao estudo de fenómenos, bruxas, fantasmas, assombrações, vozes do Além e tal, mas nunca me deram uma mãozinha de apoio, família ou entidades competentes.».
Enquanto as investigações ocorrem, fazem-se alguns desvios absolutamente necessários para relatar várias outras histórias tão ou mais fantásticas («Suponho que me acusam já de indisciplina narrativa, atardo-me em casos laterais ao objectivo anunciado (...)»). Num livro que se lê demasiado depressa, garanto que haverá tempo para tudo («Acode-me agora o exemplo de Quinzinho Pontual, história importante que gostaria de contar, se dispusessem de algum pouco tempo, sem prejuízo de vossos quefazeres e urgências.»).
Adequada a todas as idades, esta leitura faz-nos rir do insólito da vidinha do comum dos mortais tornando-se o antídoto perfeito para dias de enfado. No final, concordaremos que haverá sempre espaço para autores que recorram à comicidade da desgraça do quotidiano, damos-lhes as boas vindas à equipa de que Machado de Assis será sempre o indiscutível capitão.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Mário Zambujal - O Diário Oculto de Nora Rute


Nora Rute é uma miúda de pouco mais de 20 anos, dada a muitas liberdades prontamente proibidas - e castigadas quando descobertas - por um pai conservador que nem uma mãe habituada a pôr água na fervura consegue serenar. Posta fora de casa, mas com vigilância apertada, começa a escrever um diário que agora nos é dado a ler. 
Estamos em 1969. Ano em que tudo acontece? Talvez não tudo, mas maio de 68 ainda respira, a revolta estudantil em Coimbra está ao rubro, fala-se numa Primavera Marcelista, o Zip-Zip estreia na televisão e até o pezinho de Armstrong foi amolgar a Lua. Então e o Eusébio ia lá perder a oportunidade de trazer mais uma taça para o Benfica e colar o amuo no beicinho dos estudantes? 
O país e o mundo estão em mudança, tal como a vida desta jovem adulta espevitada com tantos episódios travessos para confessar. O estilo de Nora Rute reflete a naturalidade e simplicidade de quem escreve um diário que ninguém lerá e revela um sentido de humor que - pasme-se - lembra muito o de Mário Zambujal. 
Livro curto, não indispensável mas ótima companhia.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Mário de Carvalho - A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho

 

Um livro de contos divertidíssimo, onde a crítica aparece à vista de todos forrada a sarcasmo. Grande parte versa sobre crenças religiosas e todos assentam num universo fantástico ou non sense do qual, geralmente, não sou fã mas que aqui me pareceu indispensável.
Gostar de 6 em 6 contos, ainda que de uns mais do que de outros, é um resultado vencedor e animador que prova que a minha primeira experiência com Mário de Carvalho não podia ter corrido melhor. Sigo com um romance que estas pequenas histórias souberam a pouco.
Dizem que a língua portuguesa tem quase meio milhão de palavras, não me espantaria que Mário de Carvalho as usasse a todas. Aprendamos com ele.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Afonso Cruz - Para Onde Vão Os Guarda-Chuvas


Eu e este livro não dialogámos. O que é estranho sendo um livro de Afonso Cruz e eu ter dado 5 estrelas aos 3 primeiros livros que li dele. Talvez fosse um problema de expectativas. Colocar um autor num altar implica da parte dele um esforço em dobro para surpreender e superar as exigências. Claro que ele não sabe que eu o "endeusei" e claro que não tem obrigação de me agradar. Tal como eu não tenho obrigação de adorar todos os seus livros ainda que ele continue a ser um dos meus escritores preferidos.
Esta é uma história simples e serena sobre morte e religião, assente na necessidade de respeitar e amar o próximo. De sermos os primeiros a apagar as linhas de giz que outros traçaram à volta de quem antes já não sabia para onde ir e agora não sabe que pode escapar. Este é um Oriente distante onde espreita a falta de valores que nos globaliza e que o amor nem sempre consegue subjugar.
Para mim foi somente uma história triste que escolheu morar num livro que as ilustrações e a paginação tornaram bonito e especial.


Citações:

«Só o inesperado é capaz de nos fazer verdadeiramente felizes, mas para isso precisamos da ignorância, que é o ingrediente mais importante para a felicidade.»

«Somos cães a correr atrás da própria cauda, sempre à procura, longe de nós, de algo que temos a abanar nas costas. O sentido da vida é como aquela brincadeira perpetuada pelos cretinos que existem em todos os empregos e que consiste em colar um papel nas costas de um colega, com algum insulto escrito. É isso a vida, um papel colado nas costas. Andamos a fazer figuras, a perguntar-nos a que se deve a felicidade dos outros, e o segredo está colado nas nossas costas.»

«(...) Jesus, um dia, passou com os seus discípulos junto de um cão morto. Eles disseram: que cheiro horroroso. E Jesus disse: que dentes tão brancos. É bonito, não é? Que dentes tão brancos, É melhor, caro Mudaliar, estar calado do que abrir a boca para dizer mal.»

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Os (Meus) Melhores de 2013



Por ordem totalmente aleatória:
  • Afonso Cruz - Jesus Cristo Bebia Cerveja
  • Maria do Rosário Pedreira - Poesia Reunida
  • Valter Hugo Mãe - A Desumanização
  • Javier Marías - Coração Tão Branco
  • Pär Lagerkvist - O Anão

domingo, 1 de dezembro de 2013

Dicas Para Ler Mais

Fiz um vídeo para aquelas pessoas que:

a) Não gostam de ler;
b) Dizem que gostavam de ler mais mas não conseguem;
c) Perguntam constantemente: "Mas como é que tu lês "tantos" livros?"



Quem não tem um amigo que precisa de um incentivozinho?

domingo, 27 de outubro de 2013

Pär Lagerkvist - O Anão


Pär Lagerkvist criou o anão mais hediondo do universo literário. Inserido numa corte italiana, este anão mal humorado despreza visceralmente todos os seres humanos, com exceção, talvez, do seu amo («De todos os seres que tenho encontrado, é o único que não desprezo.»), ainda que, volta e meia, nem mesmo o príncipe escape à misantropia desta criatura («(...) contentar-me-ei em repetir o que já disse antes: que o meu desprezo por ele não conhece limites.»). Esta indecisão é a única falha que podemos apontar à sua coerência, em tudo o resto ele é, coerentemente, sórdido.
Vendido pela própria mãe («Fui assim vendido por minha mãe, que se afastou de mim com horror ao ver o ser que tinha saído do seu ventre, sem compreender que eu descendia duma velhíssima raça.»), foi sempre incapaz de amar e raramente experimenta contentamento («Eu? Eu que não sinto prazer em nada!»). A única coisa que o entusiasma é a possibilidade de sangrentos combates («Tenho sede de sangue!»), a guerra excita-o enquanto os momentos de paz o deprimem e lhe parecem preenchidos «por uma interminável tagarelice».
Ainda que em tempos idos, os anões fossem integrados nas cortes para fazerem de bobos, este «nunca se rebaixou a semelhantes manifestações», nem tão pouco chegou a lamentar o aspeto que lhe coube em sorte («De modo algum me desagrada pertencer a uma raça diferente da raça actual e que isso seja visível na minha pessoa.»). Mesmo convicto da superioridade da sua raça, despreza todos os outros anões com quem conviveu e tudo fez para que, um a um, fossem desaparecendo da sua beira, era-lhe penoso vê-los sujeitarem-se a tamanhas humilhações («Sinto-me feliz por estar só. O meu destino é odiar as criaturas da minha própria espécie. A minha própria estirpe é-me execrável!»).
Profundamente dedicado ao seu príncipe («Eu sentia por ele uma dedicação apaixonada»), agrada-lhe a posição que ocupa na corte, sente-se poderoso por frequentar o círculo próximo dos monarcas, por imiscuir-se na sua intimidade e conhecer em primeira mão todos os planos e segredos da corte.
«Piccolino» carrega em si toda a maldade do mundo. Os homens com quem se cruza temem-no porque nos seus olhos veem refletido todo o mal que trazem no seu âmago e que cobrem com o manto da decência exigida em sociedade. Pelo contrário, este anão é transparente («Não abrigo nenhum desconhecido. E reconheço tudo o que vem de mim, nada surge nos subterrâneos do meu ser, pois nada lá se encontra oculto na sombra.»), é cruel e isso não o angustia («Não, eu não conheço nem a angústia nem os remorsos, nenhum sentimento que possa especialmente comover-me.»).
Sem artifícios ou floreados, a escrita de Pär Lagerkvist permite que este diário transmita com um realismo admirável todos os sentimentos de um anão repugnante e invulgar. Estados de espírito que oscilam entre a euforia e o desânimo são revelados ao leitor com uma aparente simplicidade estilística, numa obra que rapidamente se transforma, afinal, num retrato perfeito e assustador da perversidade da consciência humana.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Valter Hugo Mãe - A Desumanização


O Filho de Mil Homens deixou-me saudades que se foram agigantando nestes dois anos de espera. Foi duro, mas deixem-me que vos diga, não foi em vão, A Desumanização é um livro imperdível. Claro que isso não faz com que seja fácil falar sobre ele, pelo contrário, mesmo depois de o ler duas vezes foram precisas outras tantas semanas para arrancar a ferros este texto miserável que vos deixo.
Não podemos definir este romance apenas como uma história dramática vivida nos inóspitos fiordes islandeses. Que nos falte a coragem para sujeitá-lo a tão débil definição quando se trata de um livro que fala, entre tantas outras coisas, de crescimento, de insularidade, de luto, de solidão, de amor, de medo, de busca de identidade. Muito de pessoas, outro muito de paisagem. Mas esta Islândia nunca se contentaria em ser somente um cenário, é uma personagem forte, esmagadora, também ela em transformação descontrolada, que condiciona a existência de todas as outras personagens («Era igual a querermos controlar o nervoso da Islândia. Da Islândia inteira. Um nervoso que se nos impunha, tão vulneráveis e para tudo deixados à deriva.»).
A narradora, Halldora, é uma menina de 11 anos que perde a irmã gémea («Foram dizer-me que a plantavam.») e se vê obrigada a descobrir uma forma de persistir com essa falha, com essa metade desarraigada da sua pessoa, no seio de uma família despedaçada pela tristeza. Amando um pai esvaziado («(...) era agora um homem encurralado. Impotente. Com os nervos a toldarem-lhe as ideias. Ainda generoso, mas confuso. Não escapava de si mesmo. Andava singular, e singular se predava, se abatia. Sozinho, o meu pai seria suficiente para se consumir. Para se acabar.») e defendendo-se de uma mãe que o sofrimento tornou cruel.
Halldora cresce em carne viva, «atrapalhada com ser ainda criança e ter dentro toda a dor do mundo». Sem orientação, consente que a inocência da infância se extinga («Não me ajudavam a regressar à infância. À desimportância da infância.») e, muito mais rápido do que merecia, torna-se mulher («Era uma mulher tão completa quanto apenas a tristeza as sabia fazer.»). Assistimos impotentes às suas escolhas questionáveis, próprias da adolescência, e vemo-la perder-se entre as incertezas do que queria («(...) confessei que me vinha ao coração uma vontade muito grande de partir o corpo. Alguém afirmou que eu me viciara na duplicação. Não tinha identidade própria. Era uma aberração. Queria fugir. Quem quer fugir já metade foi embora.») e a convicção do que não queria. E o que Halldora (e Sigridur) não queria(m) era continuar a ser aquilo («Escutaria a tristeza dos nossos dias. Recusava-se a nascer para aquilo. Para ser o que éramos nós.»).

Um romance inesquecível escrito em frases curtas que não são mais do que versos de poemas ligados por vírgulas ou pontos finais numa linha contínua. Frases curtas que se organizam em capítulos igualmente curtos. Apesar de ser um livro profundamente triste, houve espaço para deixar transparecer um pouco do humor de Valter Hugo Mãe. Tinha de existir esta tia «solteirona e larga, como uma mulher que comera um urso sozinha. Ressonava como se o urso ainda estivesse a refilar dentro dela, reclamando que o deixasse sair.». Era preciso sorrir no meio de tanta tristeza opressora.

Gudmundur diz que «A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro. (...) Todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. Para que um veja e o outro ouça.». O propósito de um livro também só se cumpre se existirem ao menos dois. Para que um escreva e o outro leia. No entanto, só a beleza pode distinguir e enaltecer uma obra. A deste romance existe, é real porque a posso partilhar convosco. Não tarda seremos muitos, a ler, a partilhar, e a provar que a literatura torna o Mundo todos os dias um bocadinho mais bonito. Ainda que ele esteja, efetivamente, a desumanizar-se.
 
 
Citações:
 
«Por serem ingénuas, as ovelhas levavam os corações puros que apenas suportavam a alegria de comerem do chão sem surpresas.»
 
«Fui confirmar ao meu pai que descobrira a pânico. Um instante em que o interior nos vinha à pele estarrecido com o nojento das entranhas.»
 
«Quando falo, não entrego nada. Deixo mesmamente despido quem tem frio e não encho a barriga dos que têm fome. Quando falo, o que faço é perto de não fazer nada e, no entanto, cria-nos a sensação de fazer tanto.»
 
«Talvez tivessem sido os pássaros mais tristes quem levara os lagos para os topos difíceis das montanhas. Apenas os pássaros poderiam ter sofrido tanto em tão altos e distantes lugares.»
 
«Ali me sentei, nem chorando, descansando os braços do berço triste que haviam feito.»
 
«Disse-lhe que não aceitava mais ser criança. As crianças não sepultam filhos. Quem sepulta um filho não tem idade.»
 
«E acreditar que deus se ocuparia também dos nossos destinos era uma casmurrice, talvez. Uma pretensão toda a dar-se importância. (…) Deus certamente bocejaria se assistisse ao espectáculo pequenino das nossas vidas. Estaria indubitavelmente olhando para outro lado, para outro lugar. (…) Deus devia estar ocupado com mais gente. Lugares de mais gente. Onde verdadeiramente alguém se revelasse excecional e admirável.»
 
«Os livros podiam ser atentos ou desatentos ao modo como contavam. Nós, inspecionando muito rigorosamente, achávamos melhores aqueles que falavam como se inventassem modos de falar. Para percebermos melhor o que, afinal, era reconhecido mas nunca fora dito antes. Os melhores livros inauguravam expressões. Diziam-nas pela primeira vez como se as nascessem. Ideias que nasciam para caberem nos lugares obscuros da nossa existência.»

sábado, 5 de outubro de 2013

Susana Moreira Marques - Agora e na Hora da Nossa Morte


A morte assusta. Não gostamos de pronunciar o seu nome com medo que nos ronde. O que dizer então de quem vai à sua procura? Foi o que Susana Moreira Marques fez, foi a terras de gente a quem a morte andava a rondar. Embrenhou-se em Trás-os-Montes, em aldeias que, pelo isolamento, se não tresandam a morte, a vida é que não cheiram de certeza e, de forma corajosa, acompanhou profissionais que são verdadeiros heróis a quem nunca se fará justiça.

A autora quis saber os pensamentos mais íntimos de um moribundo, aqueles que se revelam nas horas de maior desespero. «Se eu regressar, bater à porta mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez, se eu tiver tempo, tempo sem pressa, disfarçando que nasci na cidade, se eu souber ouvir melhor, cada palavra sentindo-se acarinhada e compreendida, se eu souber o que fazer com as mãos e não tirar notas, será que as pessoas vão abrir e dizer o que realmente pensam nas solitárias e lentas horas da noite?». Talvez fosse um trabalho inglório, impossível de realizar, há coisas que nem um moribundo tem coragem de confessar, ainda que já não haja nada a perder senão tempo. Mas Susana Moreira Marques conseguiu ao menos fazer com que as memórias destas pessoas não morressem com elas. Deixa-nos também a certeza de que cada pessoa tem uma história extraordinária para contar, basta irmos atrás dela, de coração aberto. Não é preciso vasculhar nem invadir os baús guardados no sótão, basta ouvir. Abrir o peito, puxar de um banquinho, deixar os julgamentos e preconceitos no umbral da porta de entrada, e simplesmente ouvir.

Esta jornalista procurou a morte e encontrou-a. Mas a morte não estava só, a morte não se conseguiu desenvencilhar do conceito de família que só existe nestes ermos que o país esconde com vergonha, em vez de se orgulhar e congratular por existirem. É por isso que os emigrantes voltam sempre em agosto. É por isso que não havendo crianças na maior parte do ano, estes lugares se enchem de berros e gargalhadas no verão. Porque nestas aldeias isoladas de tudo, existe um amor que aquela gente não conhece palavras para explicar. Um amor empático, altruísta. Um amor que é feito de dar, gerado pela necessidade de partilhar a solidão e o isolamento. É a esse amor que chegamos quando o resto do mundo nos vota ao esquecimento. «Quereria voltar ao fim do mundo uma e outra vez, porque uma e outra vez quereria recuperar o que no meu mundo (o centro?) parecia estar perdido: uma certa maneira de mostrar o amor.»
Neste livro pequenino, intenso, fala-se sobre morte mas enaltecem-se os afetos e o facto de se estar vivo. Há quem diga que não é preciso sofrer para saber o que é o sofrimento, mas eu cá concordo com a Paula: «ai, a gente só sabe é quando as passa».
 
 
Citações:

«Eu parece-me que há qualquer coisa depois da morte. Tenho essa ideia. Tanto nos metiam medo com coisas, para que nos andariam a enganar? Mas não sei. Os que morreram não escrevem, não telefonam, e a gente fica sem saber.»

domingo, 22 de setembro de 2013

Ricardo Lísias - O Livro dos Mandarins


Ricardo Lísias é um autor brasileiro que inexplicavelmente ainda não se encontra publicado em Portugal - Hello? Editoras? Alguém aí? Knock knock! A minha curiosidade aumentava cada vez que alguém falava (sempre bem) sobre O Céu dos Suicidas ou Divórcio. A bem da verdade ainda não tinha lido comentários a este título (simpaticamente oferecido pela gentil, sempre adorada, Denise), mas só esperava coisas boas. Às primeiras páginas quase tive uma epifania. A forma de contar a história é muito original: num fluxo, sem pausas, as descrições e diálogos vão acontecendo dando voz, ora à consciência de uma personagem, ora à consciência de outra, ou até mesmo à experiência de um narrador heterodiegético omnisciente. E quando digo um fluxo, quero dizer que de facto o que está para a frente se liga ao que ficou para trás e que este passado condiciona tudo. Condiciona por exemplo a evolução do nome das personagens que nunca é estanque, embora todos os nomes tenham tendência a pertencer à mesma família (Paulo, Paula, Paulinho, Paul, Paulson, Paul* ou diversos Omar Hasan Ahmad al-Bashir). A juntar a isto temos previsões certas de um futuro que, descobrimos mais tarde, pode não chegar a acontecer.
É um livro fácil de ler, a atenção que requer na identificação das personagens é compensada pelas repetições exaustivas de uma ideia ou de um parágrafo que ficamos a conhecer de cor, como se a história fosse contada várias vezes. Sim, já sabemos que a personagem principal é uma admiradora fervorosa do "ex-presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso", que tem uma dor de costas que "se desloca e cada dia fica em um lugar diferente" e que esta melhoraria (ou melhorará?) com o "uso da Ceragem, uma cama que, com quarenta minutos por dia, alivia a dor nas costas de qualquer um".
Este não é um livro sobre a China. Na realidade é um livro sobre negócios, sobre corporações, sobre lealdade constitucional, sobre ambição e sobre assuntos mais sérios que não adianta agora aflorar. Tudo abordado com um toque de humor saudável e indispensável.
Para mim o melhor é a forma como está escrito, surpreendente a cada passo, embora me parecesse mais sensato que tivesse menos páginas. O pior é mesmo esta sensação de confusão que me assaltou quando virei a última página, a certeza de não ter alcançado o objetivo e a malograda esperança de assistir a um final que pudesse dar sentido a tantas pontas soltas. Se não for pedir muito, alguém que me dê a mão.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Jorge de Sousa Braga - O Poeta Nu (Poesia)


Não é novidade que eu não sei - nem tento - escrever ou falar sobre poesia. Guio-me pela opinião que tenho de que para gostarmos de um poema temos, de certa forma, de nos identificar com ele. Ou porque fala de fases da vida pelas quais já passámos, ou porque retrata emoções que julgamos já ter sentido - ou até porque as retrata tão bem que nos coloca na pele do sujeito poético -, ou porque tem um humor semelhante ao nosso, ou simplesmente porque transmite uma ideia genial que nos deixa embasbacados por alguém ter tido o discernimento de pensar nela.
Se eu estiver certa, esse é o motivo de eu não poder dizer que gosto sinceramente de Jorge de Sousa Braga. Não nos identificamos. É verdade que o achei genial por vezes e é também verdade que me ri com gosto, mas, em bem mais de metade da obra, não me relacionei com o que estava a ler. Fui confundida pelo non-sense e encontrei ciências exatas a inundar o tempo que guardo para a literatura. Para mais, mesmo sabendo que longe vão os tempos (ainda bem!) da obrigatoriedade dos formatos rígidos, não pude deixar de evitar pensar que estava a ler pensamentos e não poesia.
Deixo-vos os poemas que assinalei. Porquê estes? Nem que me pedissem muito saberia explicar.


«Era quase tão bela como a Vénus de Milo. Um dia cortou
os braços a sangue frio»


«Poema de Amor

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que não
te coubesse no dedo»


«Levaram-no ao Serviço de Urgência. Perdera a fala
subitamente. O médico que o assistiu veio a apurar que
ligara as cordas vocais entre si para conseguir escapar
da sua prisão interior.»


«Lagoa Comprida

Sempre me intrigaram esses lagos de montanha alcan-
dorados nas nuvens. É como se fossem gigantescas taças
de orvalho que as montanhas erguessem para brindar
a cada novo dia.»


«Remos

Uma das coisas que aprendi muito cedo ainda foi a remar.
De modo a conjugar o som dos remos a cortarem a água
com o bater do meu coração.

Aprendi primeiro a remar contra a corrente. E agora
não sei - nem ouso - remar de outra maneira.»


«Vulcões

É cada vez mais reduzido o número de vulcões em acti-
vidade: o Stromboli, o Etna... Só de longe a longe nos
chegam ecos de uma súbita erupção.

Lentamente a terra vai perdendo a ilusão de que é uma
estrela!»

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Maria Teresa Horta - As Luzes de Leonor

 
Um extensíssimo poema sobre uma mulher nascida no Século das Luzes que dedicou a sua vida à busca da sabedoria e do conhecimento. Sempre muito à frente dos seus, bateu-se por um país que não fosse minado de intrigas e jogos políticos, lutou contra o despotismo que lhe marcou a infância e a juventude, questionou as proibições impostas ao sexo feminino e nunca se deixou vergar pelo que queriam impor-lhe.
Uma mulher culta e inteligente que foi presença notada em todas as cortes que frequentou, que tinha tantos admiradores quantos inimigos, que à imposição de casar e ter filhos respondeu com a necessidade de saber sempre mais. Enfurecia-se com a banalidade da sociedade portuguesa, o que fez com que, contrariando o pai severo, ousasse sair do país. Quis viajar, correr mundo à procura dos Grandes com os quais acabou por privar. Uma mulher com carácter e detentora de uma coragem invulgar que D. Maria, Carlota Joaquina e até Maria Antonieta fizeram questão de ter a seu lado.
Maria Teresa Horta revive a história de Leonor de Almeida, uma filha das Luzes que procurou sempre mais do que encontrou, que deu à poesia o que não soube ou não quis dar aos filhos. Para contá-la, recorre a uma linguagem poética utilizando um vastíssimo vocabulário que se enovela em metáforas e aliterações. Uma fórmula de sucesso, talvez a única capaz de espelhar todo o esplendor do século XVIII, de invadir a imaginação do leitor convidando-o a sentar-se a mesas fartas e a passear pelas ruas de uma Europa que a custo se iluminava.
 

sábado, 14 de setembro de 2013

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Amélie Nothomb - A Cosmética do Inimigo

 
Este livro nasce de um diálogo forçado numa sala de embarque de um aeroporto. Um homem abeira-se de um desconhecido que lê em paz e insiste em contar-lhe a história da sua vida. Depois de se debater inutilmente, Jérôme Angust conclui finalmente que não lhe resta outra hipótese senão ouvir o que aquele louco tem para lhe dizer. Não é ainda aqui que desconfiamos que a própria autora do livro será tão louca como Textor Texel mas não faltarão muitas páginas até isso acontecer.
É num estilo muito direto que Amélie Nothomb desenvolve a história impensável de um tresloucado. Um relato descorado onde raramente conseguia vislumbrar a Amélie Nothomb de Temor e Tremor. Senti-me orfã e desamparada em frases curtas, de ironia previsível, nas quais se antevia um pouco de génio - entenda-se feitio - mas longe da hilaridade do livro que retratou brilhantemente a sua experiência profissional no Japão.
E a verdade é que chegada à segunda metade de um livro tão pequeno eu já não esperava grande coisa. Engano e problema eu. Fui apanhada completamente desprevenida, vi-me chegar àquele estado descontrolado em que esbugalhamos os olhos, voltamos a página atrás e não somos capazes de acreditar no que estamos a ler. Isto uma vez. Meia dúzia de páginas à frente, volta a acontecer. Perdi de tal forma o chão que acho que ainda não estou recomposta.
Não esperem uma obra literária imperdível mas convençam-se que é uma história de doidos que nos endoidece irremediavelmente. A um preço absurdo de 2,5€ eu diria que vale bem a pena arriscar uma entrada pela porta grande no Júlio de Matos.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Afonso Cruz - O Livro do Ano


Desesperada, a passar por dias difíceis em que nenhum livro me apaixona, recorro a um abrigo seguro e refugio-me na melhor descoberta deste ano: Afonso Cruz.

«Nenhum homem é mais alto do que o seu chapéu.
A não ser quando levanta os braços.
Isso acontece quando está feliz.»

É anatomicamente possível levantar os braços enquanto se lê?
Precisava desse movimento, do tanto que me sinto feliz por haver livros assim.
Livros simples que se desfiam em frases, ilustrações e sorrisos. Neste caso, 365 sorrisos. Ou mais. Tantos quantos couberem em todos os dias de um ano real ou imaginado.

domingo, 11 de agosto de 2013

Entrevista a Ondjaki


Quando a Denise me convidou a preparar esta entrevista a quatro mãos, eu nem quis acreditar. À minha frente tinha a oportunidade de perguntar diretamente a Ondjaki algumas dúvidas que me inquietavam, isto se conseguisse livrar-me do embasbacamento tão pouco objetivo de uma leitora emocionalmente envolvida.
O escritor angolano, que publicou recentemente o romance «Os Transparentes», dispensa apresentações, mas nunca é de mais reler o post extraordinário que a Denise fez sobre ele e que foi, afinal, o causador desta entrevista.
Contas feitas, fica para a história a generosidade destas duas pessoas: a da Denise pelo convite e a do Ondjaki pela imensa disponibilidade, neste que é, sem dúvida, o post mais interessante deste blog. Não nos atrasemos, pois, a partilhar o essencial:
 
Inês: Viveu em Luanda, em Lisboa, no Rio de Janeiro. São três cidades diferentes, em três continentes diferentes. Para além da língua, há mais alguma coisa que as una?
Deve haver... Mas são cidades radicalmente diferentes, no tecido humano, paisagístico. Eu realmente não saberia dizer o que as une, porque mesmo a língua parece (e talvez seja) a mesma, mas depois a linguagem e o 'modo de falar' é muito diversificado. Por modo de falar entendo mais do que a fala, também o modo de comunicar, de brincar, de esperar, celebrar. É uma pergunta difícil. Tento responder daqui a dez anos.
 
Denise: Vários escritores brasileiros já foram mencionados como influentes na sua formação (Graciliano, Manoel de Barros, Guimarães Rosa e Clarice). O conto "lábios em lava", da coletânea "e se amanhã o medo", tem como epígrafe um trecho do mexicano Carlos Fuentes. Como é sua relação com a literatura latino-americana? Quais outros escritores latino-americanos foram importantes na sua formação e te inspiram?
Costumo dizer que são mais os livros que os autores. Eu li poucos autores na sua totalidade. Gosto mais de frequentar alguns livros ou mesmo algumas passagens. Posso dizer que li razoavelmente bem Manoel de Barros, mas não posso dizer o mesmo de Clarice ou Guimarães. Eu lembro-me de ter entrado devagar nos contos latino americanos... E de ter pensado, fascinadamente assustado: "nunca mais sairei daqui..." É um pouco verdade. São muitos autores bons da américa latina. São muitos livros, muitos contos. E, para dizer a verdade, é uma grande vertigem. Admitindo que a américa latina não é uma "mancha" literária, e há muitas especificidades, mas a pujança, isso a que quero chamar de vertigem, é poderosa. Ou pelo menos toca-me desse modo. Eu penso que é um pouco o que se passa com o continente africano: as nossas realidades são muitíssimo fortes, fora, totalmente fora dos limites apenas da lógica e do racional. Não são apenas os eventos que são bons para a literatura; o modo de as pessoas interpretarem a vida, de a atravessarem, de fazerem dela matéria para o teatro ou a poesia quotidiana, isso dá material forte para a literatura. Seja fantástica ou não, a literatura vive muito desse "olhar criativo" do que já foi olhado ou vivido pela população. Penso que nesse aspecto alguns autores africanos aproximam-se de autores latino americanos. Isto tudo para dizer que não são necessariamente os nomes, os autores; é mais a "coisa toda", a escrita e até a realidade latino-americana que me fascina. Vivo no Brasil de momento, tenho a oportunidade de viajar aqui dentro, e começo agora a circular mais por outros países. Tenho uma imensa curiosidade por alguns lugares que foram literários e onde é necessário pôr os olhos, o Chile, Colombia, Peru. Há-de chegar esse tempo. Também tenho vivido, não sei porquê, ultimamente, uma enorme ânsia de ir conhecer o Uruguay...
 
Inês: "Quantas madrugadas tem a noite", "E se amanhã o medo", "Dentro de mim faz sul", "Materiais para confecção de um espanador de tristezas". Como é o processo de criação destes títulos que, sozinhos, já têm tanto para contar?
Há títulos que nos chegam desde os primeiros dias de escrita. Ou um pouco antes. Há outros que vêm de dentro, seja da estória ou da boca de algum personagem. "Quantas madrugadas tem a noite" foi dificílimo. Teve outros títulos. De repente vi que já lá estava, numa frase do próprio AdolfoDido. Sobretudo, e acho que não sei explicar isto muito bem, o que busco é ficar bem com o título. Eu. Eu quero ficar em paz com um título, não quero arrepender-me dele uns anos depois. Isto é um compromisso poético, talvez metafísico, entre o livro, o conteúdo, e eu. "Dentro de mim faz Sul" é um dos mais equilibrados nesse sentido. Estamos todos em paz com essa sentença, o livro, o título, eu. Digo tudo isto a brincar, evidentemente. Quem escolhe o título dos meus livros são os mesmos dois vizinhos que os escrevem. Eu limito-me a assinar.
 
Denise: Sabemos da sua predileção pelo conto curto e pela influência de diferentes formas de linguagem nesse gênero. Quais as características mais importantes de um bom conto? Poderia citar alguns dos seus preferidos?
Isso não sei dizer... O conto tem que ser bom. Ponto final. Pode ser curto e bom. Longo e bom. E há estórias menos bem escritas. É evidente que Borges escreveu belíssimos contos. García Márquez também. Não tenho nomes presentes, mas certamente há contos de Borges, Guimarães, García Márquez, Luandino Vieira, Mia Couto, Manuel Rui, que estão entre os meus preferidos. Mas ficam sempre nomes por lembrar. Daqui meia hora a minha resposta seria diferente. Felizmente.
 
Inês: Disse numa entrevista que a história que queria contar é que determinava a técnica linguística utilizada, se recorreria a um estilo mais poético/lírico ou mais coloquial. Se estivesse a escrever a história da sua vida, como seria a linguagem?
Boa tentativa... Ainda não sei. Mas eu já me atrevi, ainda bastante novo, a escrever longos pedaços da história da minha vida. A infância está quase toda mapeada, e algumas (outras) coisas já estão escritas (só não estão ainda publicadas). Há a tendência para ser a voz de "um certo narrador" (do "Bom dia camaradas") a tratar da infância. Mas isso poderá mudar. Realmente escreve-se com a voz possível, com a voz que temos para perseguir uma pequena obsessão. Às vezes um livro é isso, algo que precisamos de contar, algo que temos que tirar de nós. Ou algo que nos acontece sonhar em forma de escrever. Por isso não sei se dá para pensar tanto na linguagem e na técnica. Surge. Sai. Lida-se com isso. E depois logo se vê. Muito se escreve também ao reescrever...
 
Denise: Entre as suas diversas obras (contos, poesias e romances) existe alguma que você tenha um afeto especial? E qual foi a mais difícil de escrever?
Com os livros, por vezes, aparece um lado cruel (não sei se necessário...): estamos incrivelmente ligados a eles e depois, com a finalização ou com a publicação, há um corte. Que dói, e que é necessário. Uns tempos mais tarde, fazemos as pazes. Comigo é assim. Fico farto, zangado, frustrado ou triste nas últimas revisões. Nem sempre o processo é claro, no sentido emocional. Ou seja, movemo-nos em territórios delicados no momento da escrita. E ao sair desses territórios, já não somos os mesmos. Certamente um dos mais difíceis de escrever foi o "madrugadas". Certamente, até ao momento, o mais difícil em todos os aspectos foi "Os transparentes". Ainda não fiz as pazes com ele. E já estamos em 2013...
 
Inês: Eu, sendo portuguesa, experimento algum estranhamento enquanto leio os seus livros, principalmente no que toca a algumas palavras ou expressões que não conheço, muitas delas tipicamente angolanas. Esse estranhamento é, para mim, uma das partes mais marcantes da leitura. Estando a sua obra traduzida para inglês, francês, espanhol, alemão, etc., preocupa-se que, durante o processo da tradução, se possa perder algum desse encanto?
Não se preocupe, eu, enquanto angolano, também sinto (bons ou não) estranhamentos quando leio literatura portuguesa ou brasileira. Faz parte, acho eu, dessa relação dúbia de muita e nenhuma familiaridade com a lingua e as linguagens de "um outro". Quanto às traduções, faço como um dos meus personagens em relação à água fervida: rezo. Rezo para que o resultado seja o menos mau possível, porque a tradução é uma área muito delicada e por melhores que sejam as intenções, o resultado é muito aleatório... Isto é, eu não posso controlar nada. Sugiro pequenas alterações nas duas linguas que posso entender (espanhol e inglês), mas são apenas sugestões pontuais. O sentido da coisa, o ritmo, a brincadeira, a ironia, o jogo, a pausa, são os elementos que dificultam e podem valorizar uma boa tradução. Chamo atenção para isto: os tradutores ocupam-se de uma arte muito elevada, na minha opinião, e são muitíssimo mal pagos. Devia haver manifestações em prol da valorização do trabalho dos tradutores. Estou a falar a sério. Agora, como em todas as profissões, existem bons e menos bons tradutores. Por isso, vou rezar mais um bocadinho...
 
Denise: Em entrevista ao programa entrelinhas você afirma que o olhar sobre a guerra e sobre o passado do seu país nas suas obras procura ser um olhar prospectivo; que pense no futuro de Luanda, de Angola. (Trecho: “Nós que crescemos em Luanda na realidade, apesar das pessoas não saberem, nós fomos os mais sortudos, porque a guerra estava fora de Luanda (...). Então eu tenho muita delicadeza e muito pudor em falar desse período de guerra que era, mas não para nós que estávamos em Luanda. Eu acho que, mesmo para falar da guerra e mesmo para falar do que não está bem em Angola, nós devemos falar numa atitude já pra frente, numa atitude a apontar para o futuro. Se eu não tenho soluções, e evidentemente que não as tenho, pelo menos que o meu tratamento literário seja um tratamento que dê dignidade à situação. Porque há coisas que já são indignas: a guerra é indigna, o sofrimento das crianças é indigno. Eu não posso reforçar aquilo que é indigno”. Ondjaki, programa entrelinhas). Poderia falar um pouco sobre como a literatura pode trazer novo significado para o sofrimento humano e sobre o papel da ficção para o futuro das sociedades?
Eu realmente não sei se a literatura poderá trazer um novo significado para o sofrimento humano... Eu penso que há qualquer coisa de poeticamente misterioso nisso que rodeia um livro. E o que rodeia um livro, somos todos os que vivemos a vida, os que a observamos, os que a escrevemos e os que a lemos, depois, em formato de livro. Isto é, tenho esperança que qualquer pessoa, qualquer velho ou criança, ao ler uma estória, poema ou teatro, esteja por alguns momentos numa condição de leveza. E não é leveza por ser "leve" ou "etéreo": é leveza porque está longe da sua condição quotidiana, contínua, de ser humano, ser social, ocupado, absorto no real. Perto de um livro, às vezes, estamos absortos do irreal, ou do surreal. Digamos, um livro existe mais no momento de ser lido, de ser interpretado. Quieto, ele é um objecto à espera de comunicar, e de ser desejado. Quieto, um livro é um conjunto de papel e letrinhas e ideias. Nas mãos, aos olhos de alguém, esse livro é um mundo, uma arma de imaginação, uma armadilha de desejos, um lugar de dor, fantasia e poesia. Se tudo isto, de vez em quando, em doses mínimas, puder "tocar" a humanidade, seja de que maneira for, então estamos num caminho interessante. Portanto, não sei se é verdade, mas talvez um dos papéis da ficção seja o de aproximar a Humanidade a si mesma. Ou não.
 
Inês: Enquanto luandense, quais as principais diferenças que encontra entre a Luanda da sua infância, descrita, por exemplo, em "Os da minha rua", e a Luanda dos dias de hoje, palco do seu novo romance "Os Transparentes"?
Não leve a mal, mas responder à sua questão é uma mera tentativa de se resumir uma coisa que leva uns bons meses a contar... E umas boas refeições e umas boas cervejas. Levei muito tempo a escrever esses dois livrinhos, sobretudo o último. Parte da sua resposta está em ambos. Parte está na vida, no dia a dia, no modo como hoje se encara a cidade... Somos todos culpados: quem manda, e quem se deixa mandar.
 
Denise: Para quem quer começar a enveredar pelo mundo da literatura africana, quais cinco livros você recomenda?
Seria uma resposta muito difícil...........
 
Inês: Os seus livros estão cheios de referências musicais (Caetano Veloso, Jorge Palma, Adriana Calcanhoto, canções soltas como Trem das Onze entre outras). Há alguma música que lhe provoque «aquela magia de um outro mundo» de "O Assobiador"?
Trecho da obra: «(...) que mexesse não só com o ouvido das pessoas, mas alcançasse, de modo incisivo, a profundidade das suas almas, o recôndito canto onde cada um escondia as suas coisas - essa assustadora gruta a que muitos chamam âmago do ser.»
Há certas músicas, certos momentos musicais de Wim Mertens (pianista belga) e mesmo de Keith Jarrett que já me provocaram altíssimas intensidades poéticas. Boas ou menos boas intensidades. Eu escrevo muito com música, usando territórios emocionais que são causados ou encontrados por via musical.
 
Denise: Uma curiosidade: que livro está lendo agora? E como seleciona suas leituras?
Não sei "como" selecciono... Estou quase sempre a ler poesia, não de modo sistematizado, mas conforme me apetece. Livremente. Mas acabei de reler "Ninguém escreve ao coronel" (García Márquez); li "A indestrutível condição de ter sido" (Helena Terra) e hoje mesmo comecei "Sabina e os manuscritos do Kuíto" (Arnaldo Santos).
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