«Porra, meu, dás pena, quer dizer, estás neste mundo só pra o que der e vier, não queres meter o corpo e o coração nele?!»
Ondjaki, em Quantas Madrugadas Tem a Noite
terça-feira, 2 de abril de 2013
terça-feira, 5 de março de 2013
David Lodge - A Consciência e o Romance
Maravilhoso. Um livro sobre livros e escritores, sobre críticos e leitores. Um autêntico laboratório de autópsias, adornado pelo humor lodgiano (alguém já inventou esta palavra? Não? Posso ficar com os créditos?), onde se desventram romances e ficcionistas.
Uma obra de não ficção de um grande autor que é igualmente um grande académico mas que faz questão de escapar à pretensão e à arrogância de esfregar o seu conhecimento na cara dos outros. Num mundo cheio de sobranceria intelectual não deixa de ser reconfortante a forma modesta como Lodge admite alguns dos seus erros.
A Consciência e o Romance ensina, muito!, explica ao comum leitor vários pormenores da arte de idealizar ficção e da tortuosa tarefa de passá-la para o papel. Escancara a porta dos bastidores e, inevitavelmente, faz com que não consigamos olhar para um romance da mesma forma depois de ler este brilhante conjunto de ensaios. Como se isto não fosse já suficiente, Lodge apresenta-nos de forma ligeira a sua visão de outros autores consagrados como Henry James, Charles Dickens, James Joyce, Virginia Woolf, Kingsley e Martin Amis, Philip Roth, etc. etc.
David Lodge é fascinante (o capítulo final bastaria para prová-lo) e eu recolho-me à minha insignificância abstendo-me de tentar arranjar formas para exprimir o quão incrível é este livro. Recomenda-se a quem se interessa por crítica literária e desaconselha-se, veementemente, a quem quer continuar a ter o prazer de ler um romance através do filtro transparente do inocente leitor.
Citações:
«A simples decisão de continuar a ler um romance ou um poema até ao fim é, em si mesma, uma espécie de acto crítico. Neste sentido lato, a crítica é, como T. S. Eliot afirmou, «tão inevitável como respirar».»
«Em 1996 fui convidado para fazer uma palestra num congresso internacional de especialistas em Kierkegaard realizado em Copenhaga e cujo tema era «Kierkegaard e o Significado de Significar». O que se segue é uma versão reduzida do que eu disse nessa ocasião. Nunca cheguei a descobrir o significado do título do colóquio.»
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Andréa Del Fuego - Os Malaquias
O meu pai ofereceu-me este livro ontem ao fim da tarde. Sentei-me à beira do fogão de lenha enquanto esperávamos pelo jantar e comecei a ler. Deixei-me agarrar pelo início cru, por uma escrita madura e uma autora que parecia não ter compaixão pelas suas personagens.
Não descansei enquanto não terminei de ler a história de Nico, Antônio e Júlia inundada pelo realismo mágico que na América Latina é rei e senhor, que quase sempre nos confunde e inebria.
Andréa del Fuego convenceu-me com as suas frases pensadas ao pormenor («Uma esfera perfeita nasceu na raiz dos olhos, a película estourou no meio do rosto»), com as suas aliterações convenientes e propositadas, com as suas metáforas irreais tão vindas da terra e dos sonhos.
Os Malaquias é um livro sobre desencontros tantas vezes forçados outras tantas permitidos. Um livro que mergulha e flutua na repetição incessante e deliberada da palavra «água» e que nela acaba por desaguar concluindo, enfim, «Em água turva, as substâncias não se veem».
sábado, 2 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
domingo, 13 de janeiro de 2013
Enrique Vila-Matas - Dublinesca
Como se classifica enquanto leitor? A resposta a esta pergunta diz-lhe se está ou não preparado para ler Dublinesca.
Este é um livro para leitores maduros, leitores que tragam Joyce num bolso e Beckett no outro. É uma homenagem aos grandes autores, aos grandes editores, e (porque não dizê-lo?) aos grandes leitores.
Partilhe a angústia de Samuel Riba, um editor literário aposentado que sofre pelo fim da era Gutenberg, e celebre um requiem pelo «mundo derrubado da edição literária, mas também pelo mundo dos verdadeiros escritores e dos leitores com talento».
Façamos todos um minuto de silêncio pela morte daquela era em que, pelo bem da humanidade, nunca seria dada a E. L. James uma página em branco.
(silêncio)
Não nos deixemos intimidar por um livro extremamente literário, que dá trabalho, que nos insulta e nos atira à cara o tanto que ainda nos falta ler.
Não se sinta mal, caro leitor, se não conhecer alguns destes nomes, preocupe-se se não conhecer nenhum. Isso significará que ainda tem um longo caminho para percorrer. Mas não tenha pressa, tome o seu tempo, estes escritores nunca ficarão fora de moda e, sendo certo que já morreram, se se puser já a andar é bem provável que ainda os alcance.
Vamos a isso? Encontramo-nos na meta!
Vamos a isso? Encontramo-nos na meta!
Citações:
«Pois um editor literário não acaba por ser um ventríloquo que cultiva à volta do seu catálogo as mais variadas vozes distintas?»
«A Lua brilha, não tendo outra alternativa, sobre o nada de novo.»
sábado, 12 de janeiro de 2013
A(d/n)otado #2
«Sonha com o dia em que a queda do feitiço do best-seller dê lugar ao reaparecimento do leitor com talento e que se retomem os termos do contraro moral entre autor e público. Sonha com o dia em que os editores literários possam respirar de novo, aqueles que se mortificam por um leitor activo, por um leitor suficientemente aberto para comprar um livro e permitir na sua mente o desenho de uma consciência radicalmente diferente da sua própria. Acredita que, se se exige tanto talento a um editor literário ou a um escritor, deve-se exigi-lo também ao leitor. Porque não devemos enganar-nos: a viagem da leitura passa, muitas vezes, por terrenos difíceis que exigem capacidade de emoção inteligente, vontade de compreender o outro e de se aproximar de uma linguagem distinta das nossas tiranias quotidianas. (...) São tão necessárias as mesmas habilidades para escrever como para ler. Os escritores desiludem os leitores, mas também acontece o reverso e os leitores desiludem os escritores quando só procuram nestes a confirmação de que o mundo é como eles o vêem...»
Enrique Vila-Matas, em Dublinesca
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Eduardo Galeano - O Livro dos Abraços
«Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada pelos demais.»
E esse é o motivo por que este livro tinha de nascer. Era bom de mais para ficar esquecido numa gaveta, teria de ser celebrado e nunca nos perdoaríamos se não existisse.
E esse é o motivo por que este livro tinha de nascer. Era bom de mais para ficar esquecido numa gaveta, teria de ser celebrado e nunca nos perdoaríamos se não existisse.
O Livro dos Abraços é feito de pequenos fragmentos de uma memória cheia. Cheia de afetos, mas igualmente cheia de pesadelos que Galeano insiste em não esquecer e que lhe permitem, com propriedade, enaltecer a vida e a liberdade. Pelo caminho presenteia o leitor com pequenas preciosidades como «aquele apagador de vulcões que o diabo deixou zarolho, por vingança, cuspindo em seu olho» ou «Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre as minhas pálpebras. Se pudesse, dizia-lhe que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada na minha garganta».
É também um manifesto político que fará sentido enquanto houver oprimidos e opressores, um grito que expõe as falsas democracias controladas por invisíveis e tiranos mercados financeiros. Galeano, como outros, tem a ditadura literalmente marcada na pele. Tal como o «enfarte agudo de miocárdio» é a «garra da morte no centro do peito», assim a repressão é a mão que em vez de esmagar os subversivos lhes dá força e os empurra contra si.
«Tínhamos comido medo ao pequeno-almoço, medo ao almoço e ao jantar, medo; mas não tinham conseguido transformar-nos neles».
E nós agradecemos. Num Mundo que parece ter-se esquecido das pessoas, é bom saber que há autores que nunca o fazem.
E nós agradecemos. Num Mundo que parece ter-se esquecido das pessoas, é bom saber que há autores que nunca o fazem.
sábado, 5 de janeiro de 2013
Nuno Amado - À Espera de Moby Dick
Escrevo assim que acabo de virar a última página. Há livros que me pedem ensurdecedoramente para o fazer. Não sei se vou gostar tanto dele amanhã como gosto hoje, por isso é justo que lhe dê uma palavrinha antes de saber se as saudades apertarão ou não quando os dias se sucederem à nossa despedida.
Não podemos aclamar Nuno Amado como um Escritor. Ainda. Não irei correr para as livrarias sempre que lançar um novo romance, mas afirmo que correrei para as caixas registadoras sempre que a sinopse me agradar. Como esta.
A história deste romance é cativante e a forma como ela se desenrola aos nossos olhos também. Vejo-a transformada num filme com uma fotografia espantosa que saltaria dos Açores às capitais europeias, que guardaria no tempo as expressões destas personagens, ora melancólicas ora eufóricas. Personagens que dão sentido à expressão popular "de génio e louco todos temos um pouco".
À espera de Moby Dick faz o que tem de fazer: comove quando tem de comover, faz-nos sorrir quando é preciso e surpreende-nos várias vezes. Sabe-me bem confessar que a 20 páginas do fim tive de parar para recuperar o fôlego e só depois continuar a ler.
Se me obrigarem a apontar defeitos foco-os na quantidade descomedida de metáforas, em algumas frases demasiado longas que não acrescentam nada a esta belíssima história e talvez nos demasiados clichés. E quando me preparava para acrescentar à lista o exagerado turismo por cidades mundiais também elas clichés, o autor dá-me uma boa razão para retirar o pensamento antes de o dizer em voz alta. Touché!
Não estou rendida ao escritor mas faço vénias ao contador de histórias. Este é um livro que se recomenda a curiosos. A quem quer saber "em que ecossistema se confundiria uma vaca preta e branca com o seu habitat" ou "quantas lágrimas por dias chora um português" e se este valor "é superior ou inferior à média europeia". Não vão encontrar as respostas, mas ao menos vão saber que houve alguém que deixou estas perguntas imortalizadas num livro.
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